Secretaria Estadual de Saúde já deixou de receber este ano R$ 14 milhões para a compra de medicamentos e abastecimento da Unicat. A informação é do secretário Domício Arruda. “Como a administração anterior não apresentou a prestação de contas do último semestre, o Rio Grande do Norte ainda não recebeu verbas do governo federal para a compra de remédios em 2011. Ao todo, o Estado deixou de receber R$ 14 milhões”, disse.
Alex Régis
Maria da Conceição, que está sem receber medicamento desabafa: Tá faltando de tudo aí (Unicat)Enquanto a questão financeira não se resolve, a população sofre com a falta de medicamentos. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE esteve ontem na Unicat. Entre os muitos pacientes encontrou duas marias aposentadas. Uma, Maria da Conceição Teixeira, de 69 anos, ex-servidora do Município de Natal e moradora do Bairro Nordeste. A outra, Luz Maria Vicente, também aposentada, portuguesa, de 65 anos e vivendo atualmente em Ponta Negra. As duas têm mais em comum além das aposentadorias e do nome: ambas são vítimas do desabastecimento da Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat) do Governo do Estado.
De quantro usuárias que a reportagem da TRIBUNA DO NORTE entrevistou, duas não tinham recebidos os medicamentos e outras duas só tiveram direito graças a decisões judiciais. Não havia longas filas de espera, pelo simples motivo de que os pacientes têm ligado antes para não darem viagem perdida e também porque muitos chegam ao local e logo retornam para suas casas, diante da negativa.
Maria da Conceição é um desses casos. Ela costuma ir mensalmente ao local. Ultimamente em vão. A aposentada não recebe o medicamento receitado para seu problema de falta de ar desde o final de 2010 e o salário mínimo que ganha mensalmente é insuficiente para pagar R$ 375 mensais pela caixa do Spiriva. “Estou quase vendo a hora de ter de pedir esmolas”, lamenta.
Ela reclama da situação e critica os governantes que “vão à televisão dizer que não falta nada”, quando na verdade o desabastecimento é gravíssimo. “Tá faltando de tudo aí (na Unicat) e não tem nem previsão de chegar”, critica. Uma amiga é quem minimiza os problemas da aposentada, dividindo no cartão, “por piedade”, o pagamento dos remédios. “Mesmo assim a conta vai crescendo.”
Já Luz Maria não tem acesso, desde o início do ano, aos medicamentos para o Mal de Alzheimer que o marido, o também português Carlos Alberto, enfrenta há mais de cinco anos. “E esse é um tipo de doença que não pode se estar sem o medicamento, pois estamos a tirar dias de vida do doente”, alerta a aposentada. Ela destaca que no Brasil os preços nas farmácias são os “mais caros do mundo” e compara: “Comprei um genérico, para depressão por R$ 80 e quando fui a Portugal comprei três caixas pelo equivalente a uns R$ 50.”
O Eranz, específico para o Alzheimer, custa mais de R$ 400 no mercado e o Seroquel, que ajuda no controle de transtornos mentais, em torno de R$ 260. “Não vou até lá (à Unicat), pois ligo sempre e me dizem que não há esses remédios e não é só o meu marido, quantas pessoas com Alzheimer não devemos ter por aí”, lembra a portuguesa.
Pacientes de câncer pedem ajuda à Justiça
Moradora do município de Jucurutu, a auxiliar de enfermagem Maria do Céu da Silva revela que passou as últimas semanas “extremamente aperreada” devido à falta de medicamentos para o tratamento do câncer de uma irmã. “É pra tomar de 21 em 21 dias e já fazia dois meses que não tinha aqui (na Unicat). O medo é ter de começar o tratamento tudo de novo por conta desse atraso”, aponta.
Ontem, ela conseguiu sair da unidade com o remédio, o Herceptin, do qual nem mesmo sabe o valor de mercado. “Dizem que é uma medicação cara”, resume. Porém, a droga só foi conseguida graça a uma decisão judicial. “Um advogado entrou na Justiça e deram a ordem para termos direito”, afirma.
Também vinda de Jucurutu, a agricultora Florismar Bezerra da Silva, que sofre com a doença e estava há 60 dias sem a medicação, só teve direito ao Herceptin igualmente graças à sentença judicial obtida pelo advogado, já que a informação era de que não havia unidades suficientes para atender toda a demanda. Por isso mesmo, ambas têm consciência de que os remédios aos quais tiveram acesso vão faltar para outros usuários da Unicat.
Diretora da Unicat diz não ter o controle
A TRIBUNA DO NORTE tem recebido diariamente ligações de usuários do Unicat que não têm conseguido receber os medicamentos aos quais têm direito e muitas vezes nem mesmo acesso a informações exatas sobre a lista dos remédios que estão em falta.
A equipe da TN procurou a direção da unidade, na manhã de ontem, para ter acesso a essa informação e esclarecer qual a real situação do estoque, no entanto a diretora administrativa preferiu não se pronunciar e a diretora técnica, que teria os dados sobre o desabastecimento, estaria “em viagem”.
O Secretário Estadual de Saúde, Domício Arruda, confessou que está enfrentando atualmente um grande problema na obtenção de medicamentos de alto custo.
Ao comentar o desabastecimento da Unicat, ele explicou que essa situação se deve à falta de prestações de contas do governo do estado para com o Ministério da Saúde, órgão que repassa os medicamentos.
Domício Arruda garantiu que medidas para minimizar os danos causados pela falta de medicamentos já foram empregadas.
Segundo ele, o governo do Estado autorizou a liberação de R$ 10 milhões de seus recursos próprios e que os produtos começarão a ser adquiridos uma vez que a tabela de registro de preços for concluída pela Sesap.
O secretário, que se encontra em Brasília, disse ainda que a situação da Unicat será discutida nesta quinta-feira com o Secretário de Assistência Farmacêutica do MS, José Miguel do Nascimento.
Desde o início do ano, a possibilidade de desabastecimento da Unicat e dos hospitais estaduais vem sendo prevista. Segundo o próprio secretário, os R$ 10 milhões de recursos próprios não resolve o problema, apenas ameniza.

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